O Rio de Lima Barreto

O Rio de Lima Barreto

setembro 30, 2019 0 Por Juliana Fiúza

O Rio de Lima Barreto leva os participantes a conhecerem o Rio que foi protagonista das obras do autor.

1915, Rio de Janeiro, Convento da Ajuda (atual Cinelândia): Durante o carnaval, um homem atira contra a ex esposa e a mata. Este caso poderia passar despercebido na história se não fosse uma crônica de Lima Barreto, intitulada “Não as matem”, em que o escritor denuncia os frequentes casos de assassinatos de mulheres na época. Em um trecho emblemático o autor diz sobre os assassinos:

“Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros. Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer”.

Passados 104 anos, o tema segue, infelizmente, sendo atual, apesar dos avanços obtidos desde a escrita de Lima Barreto, como a tipificação jurídica do feminicídio. Além de se posicionar contra a violência às mulheres, Lima Barreto se manifestou sobre diversos problemas do Rio de Janeiro de outrora, como em críticas sobre o racismo, a república e a reforma urbana – novamente problemas que continuam a existir entre nós e acaloram os debates nas redes sociais.

Assim, Rio de Janeiro e Lima Barreto estão conectados para a eternidade.

O tour apresenta os caminhos que percorreu o pensamento e o corpo de Lima Barreto pela cidade carioca, como a Cinelândia, no evento descrito acima; a Academia Brasileira de Letras, onde Lima Barreto foi renegado duas vezes; e também a Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e a Praça XV, locais marcados pela Revolta da Armada e a da Vacina, respectivamente, que Lima Barreto abordou a fundo em suas crônicas, e no seu Diário Íntimo, onde denunciou as inúmeras violências e arbitrariedades de que foram vítimas os populares revoltosos.

A intenção de promover o debate acerca das posições de Lima Barreto em formato de passeio veio justamente pela exclusão que o escritor suburbano e negro sofreu no Rio de Janeiro em que vivera e também pelo esquecimento do autor na cidade atual. Eu conheci o Lima ainda na escola, sempre me intrigou a forma como ele foi tratado pela sociedade na época.

A ideia do roteiro surgiu há muito tempo, mas era difícil ter acesso as crônicas dele, que sempre foram a sua maior forma de expressão; por isso, a pesquisa foi muito dificultosa, precisei comprar livros que falassem sobre ele e o Rio de Janeiro. A vida pessoal dele era mais fácil de encontrar, mas as crônicas, não. Ele publicou em muitos periódicos de pouca expressão, o que prejudica na realização de uma pesquisa.

Outro fator destacado no evento é mostrar Lima Barreto como um questionador e debater de forma coesa os pensamentos dele com o momento em que vivemos, não apenas na cidade, mas por todo o país.

A maior descoberta foi saber em como ele foi pioneiro em questões sociais, como falar de racismo e feminicídio em uma sociedade enrijecida e preconceituosa. A indignação do Lima é algo presente na sociedade atual. A diferença é que ele era ignorado. Era uma voz na multidão, hoje a sociedade retoma amplamente discussões que ele começou em 1900.

O roteiro ocorre mensalmente e você pode conferir as datas na agenda aqui do site ou na página do Papo de Guia no facebook.