Juliana Fiúza/ dezembro 8, 2019/ Blog/ 0 comments

Em 8 de dezembro de 1994, perdíamos o maestro soberano: Tom Jobim. Em 2019 completamos vinte e cinco anos sem um dos maiores músicos brasileiros. Relembre Tom Jobim através da crônica “O aprendiz de ternuras”, de Ruy Castro.

O Aprendiz de Ternuras

“Todas as vezes que Tom abriu o piano o mundo melhorou. Mesmo que por poucos minutos, tornou-se um mundo mais harmônio, melódico e poético. […] O que resultasse de seu gosto de abrir o piano — uma nota, um acorde, uma canção — vinha tão carregado de excelência, sensibilidade e sabedoria que, expostos à sua criação, todos nós, seus ouvintes, também melhorávamos como seres humanos.

A música serve para muitas coisas. Serve para ouvir, para namorar, para dançar, para marchar, para agredir, até para matar. O negócio é o equilíbrio.

[…] — ao olhar em volta, Tom via seu universo de praias, matas e cidades sendo devastado pela cobiça, pela insensatez e pela burrice humanas. Vivia denunciando isso em entrevistas, mas sua verdadeira trincheira para resistir a esse inferno era o piano.

Durante anos, Tom Jobimfoi acusado de “americanizado”. A pecha lhe doía porque, em sua cabeça, como podiam ser tão surdos? Logo ele, tão francês, tão amante de Chopin e Debussy. É verdade que morou anos nos Estados Unidos — era obrigado a isso, pelos editores e pelas gravadoras.

Mas, quando vinha ao Rio, o que era sempre, e lhe perguntavam quando pretendia voltar de vez, dizia: ‘Como voltar, se eu nunca saí daqui?’. Nova York era o escritório, onde dava expediente; o Rio, sua casa. Se não tivesse essa obsessão em ‘voltar para casa’ ao fim do expediente, teria facilmente se tornado uma peça do Grande Sistema. Para isso, bastar-lhe ia aceitar as mil encomendas de gente poderosa, como as de musicar os filmes com que Hollywood lhe acenou.

Entre os filmes que lhe foram oferecidos e ele recusou, estão A pantera cor-de-rosa (1964), Um caminho para dois (1967) e O exorcista (1973) — Henry Mancini ficou com os dois primeiros, Jack Nitzsche com o último. Os filmes o obrigariam a fazer música eletrônica, com barulinho de água:

A gente fica rico, mas já não tem muito a ver com a música

As hollywoodices de sucesso garantido não o atraíam, mas, em compensação, aceitava vir ao Rio para fazer, de graça, música para filmes de seus amigos brasileiros — filmes que ninguém iria ver, nem no Brasil. Em todos os sentidos, era um homem generoso: para se tê-lo num disco como ‘convidado’, bastava, exatamente, convidá-lo.

Até recentemente, muitos, inclusive eu, não entendiam como o compositor mais urbano, moderno e ‘sofisticado’ que este país produziu voltou-se um dia para os botos, os sabiás e os urubus, e com eles construiu uma nova saga, tão fecundamente brasileira. Ou como o homem que descobria as harmonias insuspeitas ainda tivesse olhos para fiscalizar qualquer coisa verde que corresse perigo, de um simples canteiro no Jardim Botânico às massas florestais da Mata Atlântica.

Mas, até então, naturalmente não conhecíamos o belo livro Antonio Carlos Jobim — Um homem iluminado, de sua irmã, Helena Jobim. Por ele descobrimos que, se sua obra parece úmida de tantas regiões e épocas do país, é porque Tom trazia dentro de si uma rica trajetória protagonizada por sua família desde fins dos 1700, princípios de 1800, e que lhe chegou através de gerações. Sem isso, ele não teria sido quem foi.

Quando Tom entra na história, ela se torna uma fabulosa crônica de Ipanema e Copacabana dos anos 30 e 40 — ainda muito longe de serem a Ipanema e a Copacabana que depois conheceríamos. Sua infância foi inventário de um paraíso entre a montanha e o mar, com as praias douradas onde o menino catava tatuís para sua mãe preparar com arroz; a Lagoa, muito maior que a de hoje, que ele atravessava a nado, numa só braçada; e os morros, a que subia para empinar pipa, caçar passarinho e misturar-se com a natureza. Lá de cima, os olhos do já adolescente Tom viram quando a cidade, partindo do Centro, começou a sua última e mais violenta investida em direção sul: avançando pelos terrenos onde só havia chácaras, contornando as águas com seus prédios de luxo e subindo pelas encostas com casebres de papel e zinco.

Pela sensibilidade de Tom passaram árvores, peixes, aves, cheiros, cores, sons, expressões, nomes de ruas, trajetos de bonde e costumes perdidos.

Ele era ambidestro, você sabia? Nascera canhoto e, como era comum, obrigaram-no a aprender a usar a mão direita, com o que escrevia com uma e desenhava com a outra. […] Quem abriu seus olhos para o crime dos desmatamentos e para a necessidade de preservar a natureza foi, ora veja, Ary Barroso. Só pode comprar seu primeiro carro, um Fusca, aos 35 anos. Obrigado a passar o dia falando inglês em seus primeiros tempos de Nova York, Tom Jobim, sempre que sozinho, falava português em voz alta: ‘Pão, feijão, alemão, João, me dá um cafezinho que eu estou fraquinho sentado nesse banquinho’ — uma saraivada de ãos e inhos para ‘colocar o maxilar no lugar’.

E não havia ave ou estrela que ele não conhecesse pelo nome e sobrenome. Um dia, voando de Roma para Nova York, olhou pela janela e estranhou que as estrelas estivessem fora do lugar — perguntou à aeromoça e foi informado que o avião, com problemas, estava voltando para Roma.

Apesar de atleta na juventude, ele sempre tivera saúde frágil, fragilidade agravada por bebida demais e cuidados de menos. Durante muitos anos, isso não fez diferença: Tom tinha tanta vida para tirar de dentro de si que parecia imortal. Tinha vida também para dar, como ao voltar a ser pai depois dos cinquenta.

E, então, foi tudo de repente: os primeiros sintomas de distúrbios circulatórios, o câncer na bexiga, a iminência da morte, a ida para a cirurgia em Nova York e sua terrível e impressionante última noite, num quarto de hospital Mount Sinai, com Tom lutando para respirar, cercado por enfermeiros incompetentes, até o enfarte estrondoso e mortal. O sofrimento desses minutos fatais como presenciado por seu filho Paulo Jobim e narrado por sua irmã, Helena, compõe algumas das páginas mais tristes da língua portuguesa nos últimos anos.

Helena perdera seu irmão. Mas, naquela noite de 8 de dezembro de 1994, todos ficarmos órfãos do homem que, certa vez, chamou a si próprio de ‘um aprendiz de ternuras’.”

Texto adaptado de: Ruy Castro, A onda que se ergueu no mar.

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Confira a agenda do roteiro “O Rio de Tom Jobim”, clicando aqui.

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About Juliana Fiúza

Juliana Fiúza é guia de turismo e empresária em sua agência, Papo de Guia. Mora no Rio de Janeiro, é estudante de letras, apaixonada por música, literatura, cultura pop e papelaria.

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