Juliana Fiúza/ outubro 26, 2019/ Blog/ 1 comments

A primeira-dama, Nair de Teffé, impactou a sociedade carioca ao executar o corta-jaca em um sarau no Palácio do Catete, há 105 anos atrás.

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“O Corta-Jaca é uma dança brasileira para se dançar só, que tem como característica os movimentos dos pés sempre muito juntos e a não flexão dos joelhos. Os movimentos de pés dão a impressão de uma faca cortando uma jaca”.

– Dicionário Cravo Albin

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O polêmico Corta-Jaca. A noite de 26 de outubro de 1914 foi sonora em todas as suas dimensões. Celebrando o quatriênio de Hermes da Fonseca na presidência, a então primeira-dama Nair de Teffé (1886-1981) animou os espíritos ilustres e oficiais de seus convidados com uma programação musical um tanto inusual para a ocasião.

No repertório, que incluía peças do compositor Arthur Napoleão e uma das célebres Rapsódias do húngaro Franz Liszt, praxes de qualquer ambiente “elevado” da Primeira República, figurava timidamente um tango para violão a ser executado pela própria “Mme. Nair Hermes” em pleno Palácio do Catete.

Não era a primeira vez que certo “sotaque” popular se insinuava na prosódia da elite política do Rio de Janeiro. Em maio do mesmo ano, o casal presidencial recebeu, no Palácio do Governo, Catulo da Paixão Cearense para um sarau no qual estavam presentes nomes que iam de José Gomes Pinheiro Machado a Oscar Guanabarino, representantes respectivamente das cúpulas política e artística da República.

Poeta, letrista e personalidade incontornável entre os artistas de seu tempo, “Catulo”, como era conhecido entre seus pares, era um amante adicto das modinhas brasileiras e fez de sua carreira um gesto a favor da legitimação desse gênero enquanto expressão da cultura popular brasileira, chegando até mesmo a receber de Alexandre Gonçalves Pinto, o “Animal”, a alcunha de “Ghandi da modinha brasileira e dos poemas sertanejos”.

Com espírito aguerrido de trovador, Catulo fez ecoar pelas salas do palácio um som diverso do erudito habitual, para contentamento dos convidados e inclusive do presidente, seu admirador confesso. O relativo sucesso do recital de maio seria mais do que suficiente para ensejar uma nova soirée.

Chiquinha Gonzaga

chiquinha gonzaga papo de guia Corta-jaca

Em 1914, se o “Corta-jaca”, subtítulo da canção e espécie de seu codinome, já era “famoso”, é porque havia circulado um bocado até chegar às mãos da primeira dama. Ao contrário do que lembrava a baronesa de Teffé, a peça fora composta por Chiquinha Gonzaga (1847-1935) originalmente para a opereta Zizinha Maxixe, em 1895, e não em 1914 a pedido de Catulo. Apesar da pouca repercussão da opereta , a música foi editada em abril de 1899 sob o selo da Casa Vieira Machado, que, juntamente com a casa Buschmann & Guimarães, era um dos principais estabelecimentos do Rio de Janeiro responsáveis pela publicação de partituras musicais.

De lá para cá, o tango para piano “Gaúcho”, título oficial, fora incluído na revista Cá e lá, de 1904, e entoado pela população carioca em “chopes berrantes” espalhados pela cidade, espaços de sociabilidade e divertimento das classes baixas onde a preferência era por música nacional.

Por fim, devido ao sucesso de Cá e lá, Fred Figner, proprietário da Casa Edison – primeira empresa fonográfica do Brasil –, gravou duas versões da canção em seu pequeno estúdio na afamada Rua do Ouvidor, coração do Rio de Janeiro.

Nair de Teffé

nair de teffé papo de guia corta-jaca

Filha de Antônio Luís von Hoonholtz, o Barão de Teffé, e Maria Luísa Dodsworth, a pequena Nair teve uma infância rica, financeiramente e culturalmente. Tendo um pai diplomata viajou o mundo ainda menina e frequentou as melhores escolas da elite europeia.

Em 1905, com apenas 19 anos, Nair volta ao Brasil influenciada pela Bella Époque, cheia de ideias na cabeça e inspirada nos cartunistas europeus, ela começa a desenhar caricaturas para várias revistas como O Malho e a Fon-Fon e os periódicos O Binóculo e A Careta, entre outros. Com um traço ágil, dizem que a moça tinha o dom de traduzir bem o caráter das pessoas.

No começo ela assinava como Rian (seu nome ao contrário e sonoramente parecido com rien, que em francês significa “nada”) e desde que retorna da Europa ela virou o Brasil ao contrário com sua irreverência.

O “Gaúcho” ouvido e cantarolado na rua adquire significados muito diversos quando executado na “casa” de Marechal Hermes e Dona Nair. Chega mesmo a soar diferente.

Na noite de 26 de outubro, os acordes sincopados do tango foram seguidos do ruído das palmas e do escárnio. As palmas vieram das mãos dos presentes: além do presidente da República e do maestro Arthur Napoleão, Nícia Silva, professora de canto da primeira dama, Leopoldo Duque Estrada e o maestro Ernane de Figueiredo, todas elas figuras associadas ao Instituto Nacional de Música, espécie de farol norteador dos rumos da música erudita no Brasil durante parte do século XX.

Já o escárnio veio dos jornais, obstinados a “criticar, de muitos e diferentes modos, a inclusão do tango magnífico no programa de uma festa diplomática” e tratando rapidamente de vincular o malfadado evento à gestão atribulada de Hermes da Fonseca. Veio também, de forma mais cáustica e severa, da boca do senador Rui Barbosa, que, num discurso em sessão do Senado Federal, ridicularizou a música e a festividade ao redor dela:

Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!

– Rui Barbosa, Anais do Senado Federal, v. VII

O tom mordaz que Rui Barbosa emprega em seu comentário parece ir além de um exercício desinteressado de crítica musical, bem como escapa ao teor puramente pessoal de rusgas entre adversários políticos. Valendo-se de um ataque pontual e certeiro ao evento no Catete e deflagrando de maneira inconformada a decadência moral à qual se submeteram o dirigente da nação e a “mais fina sociedade do Rio de Janeiro”, o senador baiano vocaliza em sua diatribe diversas das tensões constitutivas da experiência republicana brasileira nas primeiras décadas do século XX.

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Tango, maxixe, corta-jaca, samba e…funk?

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A palavra “tango” – ou “tango brasileiro” – não circunscreve com precisão um gênero dentro da história da música brasileira. Ele pode, contudo, ser genericamente caracterizado por sua estrutura binária sincopada, isto é, em que a acentuação do tempo forte do compasso ocorre na segunda semicolcheia ao invés da primeira, como na polca europeia.

No entanto, outros nomes designam formas musicais semelhantes, como o maxixe, o batuque, o cateretê e o choro, indicando que a nomeação desse material musical era objeto de disputa entre produtores culturais da época, ora mitigando ora pontuando a presença de hierarquias simbólicas e relações de poder no campo da cultura.

O pianista Ernesto Nazareth, por exemplo, compunha canções que correspondiam ao gênero binário sincopado, mas se recusava a chamá-las de “maxixes”, preferindo o termo tango dadas as suas intenções de ocupar um lugar dentro do campo da produção simbólica que o aproximasse do estilo erudito.

Tanto o maxixe, quanto o tango e o corta-jaca, já foram considerados danças e ritmos sensuais, e portanto, inadequados, de baixo valor cultural e moral. Na atualidade, o estilo musical, funk, passa pelo mesmo processo de firmação e valorização cultural como expressão musical de uma determinada comunidade.

Quem disse que a história não se repete?

Fontes

O texto presente neste artigo foi extraído do artigo “Catete em ré menor: tensões da música na Primeira República“, de Rafael Nascimento, que você pode ler na íntegra, acessando aqui.

As informações sobre Nair de Teffé foram retiradas do site Deviante, que você pode ler acessando aqui.

A conceituação do corta-jaca foi retirada do maravilhoso Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira que você pode ler acessando aqui.

A música brasileira, em breve, será tema de um tour realizado pelo Papo de Guia e o museu, Rio Memórias. Confira a agenda aqui para acompanhar o calendário de eventos, que em breve contará com o tour “Rio de Sons“.

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About Juliana Fiúza

Juliana Fiúza é guia de turismo e empresária em sua agência, Papo de Guia. Mora no Rio de Janeiro, é estudante de letras, apaixonada por música, literatura, cultura pop e papelaria.

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Uma resposta para “Corta-Jaca: há 105 anos ele causava no Palácio do Catete”

  1. Luiz Fernando C. Bastos disse:

    A capoeira, era considerada de marginais, e hoje é “exportada”pra diversos países, uma vez que na Africa ela não se perpetuou. Como fala, o maior mestre de capoeira hoje vivo, Mestre Camisa, “A capoeira nasceu na África, mas se criou no Brasil.

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