Juliana Fiúza/ setembro 30, 2019/ Roteiros/ 0 comments

O tour Botequins do Rio Antigo leva os cariocas a conhecerem a história de uma das maiores instituições do Rio: o boteco.

No início do século XVIII começaram a surgir os ancestrais dos nossos botequins: as boticas. Essa origem não se limita a uma mera herança de nome, mas também da função de reduto cultural. Nas boticas, os homens se reuniam para falar de política, jogavam cartas e dados; além isso, muitos donos de boticas serem membros de sociedades particulares.

O ambiente destes estabelecimentos se transforma com a chegada da Família Real em 1808. Há um aumento significativo de estrangeiros, que não só circulavam pela capital, mas abriam seus negócios na cidade. O medo de revoltas rondava a corte e, em 1808, um decreto ordenava as boticas fecharem às 22h. Este mesmo decreto é o primeiro registo do termo “botequim” relacionado a estes ambientes, em que a descrição de Ernesto Senna, em “O Velho Comércio do Rio de Janeiro”, define: “[…] botequins onde se vendia café, bebidas e se explorava o jogo de bilhar, estabelecidos em várias ruas da cidade desde a Ponta do Cajú ao Jardim Botânico.”

O regulamento ainda impedia que estes locais funcionassem todos os dias da semana, como se pode notar no trecho a seguir: “Que as vendas, botequins e casas de jogos não estejam toda a noite abertos para se evitarem ajuntamentos de ociosos, mesmo de escravos que, faltando o serviço de seus senhores se corrompem uns aos outros, das ocasiões e delitos.”

Os adeptos dos botequins eram considerados a ralé da sociedade. E nestes ambientes era consumido, principalmente, a aguardente e o vinho português, já que uma lei proibia a produção de vinho no Brasil. A cerveja começa a circular na cidade com a abertura dos portos, em 1808.

Depois surgiram os quiosques, em meados de 1870, como conta os autores do livro “Memória Afetiva do Botequim Carioca”, no seguinte trecho: “Uma das principais figuras por trás do comércio dos quiosques foi o empresário Luiz de Freitas Vale, o Barão de Ibirocaí. Freitas manteve fortemente as redes de quiosques desde 1898 e ficou reconhecido nas altas-rodas como o barão de ‘Ibiroquiosques’. Após uma longa oposição a esse tipo de comércio, que permaneceu por anos, apenas em 1911 ele começou a ser recolhido pouco a pouco na cidade. Hoje, podemos encontrar apenas dois exemplares próximos dos originais dentro do parque do Passeio Público, no Centro do Rio.”

Com a reforma urbana de Pereira Passos, os botequins assumem cada vez mais um formato alemão, com a venda do chope fresco, “tirado” na hora e bem gelado, além dos petiscos. Neste período os intelectuais passam a ser figuras presentes nas mesas destes estabelecimentos, que perdia a característica de ser um local apenas da “ralé”. Os botequins se tornavam cada vez mais democráticos e todas as classes conviviam no mesmo espaço. Como foi o caso do Bar Adolph, que desde a década de quarenta assumiu o nome de Bar Luiz, devido aos ataques sofridos durante a Segunda Guerra Mundial, quando os estabelecimentos alemães eram apedrejados no Rio.

A função de reduto de criação e resistência cultural é que nunca abandonou estes locais. Histórias curiosas contadas por nossos intelectuais e personalidades nasceram ,em sua maioria, em uma mesa de bar; nos cabarés e botequins da Lapa, e da Vila, Noel Rosa escrevia os sambas que são cantados até hoje. Diversas das suas colaborações eram feitas enquanto ele ficava em pé, do lado de fora dos botecos, observando o movimento. Alguém chegava, mostrava o samba em que estava trabalhando. Noel apagava grande parte, corrigia o samba e entregava. O desconhecido ia embora, e Ismael Silva, que sempre o acompanhava, não entendia as atitudes de Noel, afinal, ele nem fazia questão de pedir os créditos pela composição.  Na Casa Villarino, Tom e Vinicius iniciaram a parceria na Bossa Nova, com o projeto da peça teatral Orfeu da Conceição, que inclusive foi adaptado para o cinema, ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na Wiskeria Gouveia o compositor Pixinguinha teve cadeira cativa por trinta anos, chegando a ficar conhecida como “Escritório do Pixinguinha”.

E não mencionar o Zicartola seria um pecado. Fundado por Cartola e Dona Zica na Rua da Carioca, funcionou de 1963 a 1965, em um período delicado da nossa história. Em plena ditadura militar, o restaurante que funcionava como uma casa de pasto, ou seja, além de restaurante era uma hospedagem, foi reduto de intelectuais que se reuniam em suas mesas para curtir o samba e discutir o futuro do país no auge da repressão cultural. Também foi o local que uniu os sambistas do morro com os do asfalto. A Bossa Nova que estava em seu auge era representada no palco do Zicartola pela sua musa, Nara Leão, que chegou a participar do show “Opinião” que ali surgiu. Sem contar que foi no Zicartola que Paulinho da Viola iniciou sua grandiosa e longeva carreira.

Símbolo de resistência cultural e das transformações urbanas, os botequins se tornaram cartão postal do Rio, além de programa certo na agenda do carioca.

No roteiro “Botequins do Rio Antigo” os participantes conhecem botequins tradicionais da cidade, além de duas paradas para cervejas e petiscos no Bar Luiz e no Bar Léo, ponto final do passeio que ocorre há mais de dois anos no Rio. A agenda completa você pode acessar aqui no site, ou na página do facebook, Papo de Guia.

*Este artigo também foi publicado no site da Márcia Peltier, através de um convite feito por ela.

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About Juliana Fiúza

Juliana Fiúza é guia de turismo e empresária em sua agência, Papo de Guia. Mora no Rio de Janeiro, é estudante de letras, apaixonada por música, literatura, cultura pop e papelaria.

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