Juliana Fiúza/ outubro 16, 2019/ Blog/ 0 comments

Em 2019, o mundo completa trinta anos sem Nara Leão, a musa da Bossa Nova que passou a vida, e a carreira, negando este título.

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Origens e Trajetória

Nara Leão nos anos cinquenta. Papo de Guia.

Nara, impossível de ser definida musicalmente. Como pessoa, os amigos eram unânimes: era única.

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Nara Lofego Leão nasceu em Vitória, no dia 19 de janeiro de 1942. Com apenas um ano de idade se mudou para o Rio de Janeiro com a família: pai, mãe e a irmã mais velha, Danuza. Foi emancipada aos dezesseis anos, o pai queria que ela trabalhasse para não depender de marido.

Era tímida, de acordo com ela, gostava de se recolher em sua concha:

“Nunca tive motivos concretos que determinassem minhas neuroses; sempre houve uma soma de pequenas coisas. Sempre tive complexo. Não lembro muito da minha infância, mas sei que pelos doze anos chorava sem parar. Eu era quieta, tímida e me considerava muito feia. E o que é pior: era irmã de mulher muito bonita. Eu não existia, não era Nara Leão.”

Nara sempre temeu ingressar na vida artística, pois tinha medo de perder sua privacidade, como se provou ao longo de sua vida, fazendo hiatos na carreira para cuidar dos filhos, estudar e viver sua vida.

Começou a estudar violão aos doze anos, seu professor era Patrício Teixeira. Por uns tempos dividiu as aulas com o namorado, Roberto Menescal, que após o fim do relacionamento com Nara, continuou sendo seu grande amigo e parceiro musical.

Pela amizade de Nara com Roberto e Carlos Lyra, além da notória liberdade que reinava na casa Leão, que as reuniões dos músicos ocorria no seu apartamento, no famoso edifício Louvre, apartamento 303, Palácio Champs Elysée, na Avenida Atlântica, 2.853, posto quatro.

A lenda diz que ali nasceu a Bossa Nova, versão desmentida veemente por Nara, já que eles raramente tocavam Bossa (Carlos Lyra chamou o estilo de “sambalanço”) e João Gilberto e Tom Jobim, já conhecidos, quase não se reuniam no local.

Mas foi naquele endereço que Nara conheceu Ronaldo Bôscoli. Logo se apaixonaram e ele escreveu para ela “Barquinho”, “Lobo bobo” e “Se é tarde, me perdoa”. Ele tinha vinte e oito anos, Nara quinze.

A primeira vez que se apresentou em público foi na Escola Naval, em 13 de novembro de 1959. Cantou de costas, contrariada, chorando. Passou a se apresentar com os amigos, gravando seu primeiro LP em 1964, intitulado “Nara”. O álbum já trazia composições de artistas que nada se relacionavam com a Bossa, como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho. Estreava mostrando o notório bom gosto de Nara para repertório, sendo ela responsável por unir o samba do morro com o do asfalto.

Seu rompimento com a Bossa ocorre ainda em 1964, em seu segundo LP, Opinião de Nara. Rompida com Bôscoli, que a traiu com a cantora Maysa, durante uma turnê na Argentina, Nara passa a negar o título de “musa da Bossa Nova”, criticando publicamente o estilo, criando até mágoa em Tom Jobim, que não escondia estar chateado com ela, e há quem diga que ele nunca a perdoou completamente pelo o que disse.

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Show Opinião

nara leão show opinião papo de guia

O show Opinião, de 1964, firmou Nara como artista multifacetada e notória ativista. Junto com o show Opinião, viajou o Brasil pesquisando sobre a música popular brasileira, sua eterna paixão. Conheceu Maria Bethânia, que veio a substituir posteriormente, a convite de Nara.

O show causou revolta por parte dos apoiadores da ditadura militar. Com suas opiniões e gravações dos sambas de protesto, como Acender as Velas, de Zé Keti, ela virou o principal alvo da ditadura, se exilando em 1969, retornando ao Brasil apenas em 1972.

Por toda a vida ela gravou sambalanços, sambas, chorinho, jovem guarda, tropicália…sempre inovadora, sua vontade era de cantar o Brasil, o que irritou Elis Regina, que dizia que Nara não se definia e vivia rompendo com os estilos musicais que experimentava, assim que lançava um LP. O desafeto de Elis quanto a Nara era claro, ela nunca fez questão de esconder. Já Nara nunca correspondeu a inimizade.

Detalhe que Elis foi casada com Bôscoli, o lobo que conseguiu conquistar as três maiores cantoras do Brasil.

Vida Privada

Nara Leão com Francisco e Isabel Papo de Guia

Nara teve dois filhos, Francisco e Isabel, com seu primeiro marido, o cineasta Cacá Diegues. Se casou posteriormente com Ruy Guerra, e se relacionou com Marco Antonio Bompet, seu último namorado.

Era uma mãe presente e foi responsável por inspirar mulheres a serem modernas, incentivando-as a serem independentes, a serem mães, amigas e profissionais de sucesso. Fez turnês internacionais, se apresentou em teatros por todo o Brasil, estrelou filmes e abriu portas para novos artistas e estilos, como a Tropicália.

Em 1979, Nara descobriu uma doença que a fazia ter lapsos de memória. Inicialmente, o diagnóstico foi revelado apenas ao seu pai, que não tardou em cometer suicídio. A cantora só descobriu que sofria de um grande tumor no cérebro no meado da década de oitenta quando seu amigo e agente, Miguel, resolveu revelar para ela.

O quadro se agravou em 1989, após uma melhora e regressão do tumor, que Nara atribuía a um paranormal. Ela fez radioterapia, perdeu parte dos cabelos, porém em 18 de maio daquele ano sofreu uma queda na cozinha de casa e foi internada. No dia 24 do mesmo mês, entrou em coma.

O tumor era inoperável, afetaria áreas do cérebro que a deixariam muda.

Faleceu em 7 de junho de 1989. Deixando um legado inestimável.

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Reportagem

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Em 2019, completando trinta anos sem Nara Leão, foi homenageada no Conversa com Bial, contando com a presença de Roberto Menescal e Isabel Leão, sua filha. Você pode assistir o programa aqui.

A história de Nara e sua importância musical estarão presentes no tour “Rio de Sons” que será realizado, em breve, em parceria com o Rio Memórias. Fique ligado na agenda aqui do site ou na página do facebook.

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About Juliana Fiúza

Juliana Fiúza é guia de turismo e empresária em sua agência, Papo de Guia. Mora no Rio de Janeiro, é estudante de letras, apaixonada por música, literatura, cultura pop e papelaria.

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